PRESENÇA (Presence) | EUA | 2025
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: David Koepp
Elenco: Lucy Liu, Chris Sullivan, Callina Liang, Eddy Maday, West Mulholland, Julia Fox
Duração: 85 minutos
Sinopse: Uma família se muda para uma casa suburbana em busca de recomeço. No entanto, a residência guarda segredos perturbadores, incluindo a presença de uma entidade sobrenatural que observa e interage com os moradores. A narrativa explora os conflitos internos da família, enquanto eventos misteriosos e tensos revelam camadas de mistério e drama psicológico.
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Ao sair da sala de cinema após assistir ao filme Presença, dirigido por Steven Soderbergh, uma palavra vem à mente: profundidade. Este não é apenas mais um filme de refinado suspense. Ele se apresenta como uma obra que mistura drama, introspecção, emoção e suspense de maneira magistral. Gravado inteiramente dentro de uma casa — cenário que se torna quase um personagem em si — o filme constrói um universo rico e envolvente, que é habitado por uma entidade sobrenatural conhecida como "presença". Essa entidade, que parece estar lá por tempos imemoriais, observa e interage com os membros da família Payne, intensificando os dilemas e mistérios da trama.
A conexão entre a "presença" e Chloe Payne, interpretada por Callina Liang, é um dos aspectos mais fascinantes do filme. Liang entrega uma atuação impecável, trazendo vulnerabilidade e profundidade emocional que tornam sua personagem extremamente humana e cativante. O pai da família, Henry Payne, vivido por Chris Sullivan, também se destaca com uma interpretação carregada de emoção, revelando os conflitos internos de um homem que tenta proteger sua família enquanto enfrenta seus próprios demônios pessoais. Esses dois atores elevam o nível de entrega emocional da obra, tornando-a ainda mais impactante.
O filme inevitavelmente nos remete à obra A Ghost Story, de David Lowery, tanto em sua profundidade filosófica quanto em sua abordagem narrativa única. Ambas as produções utilizam o ponto de vista de uma entidade não-humana para explorar temas existenciais como o tempo, a mortalidade e as conexões humanas. Enquanto A Ghost Story se destaca por sua contemplação silenciosa e a representação da passagem do tempo como algo quase palpável, Presença adiciona um dinamismo maior ao incluir interações diretas e marcantes entre a entidade e os personagens, especialmente Chloe Payne. A sensação de atemporalidade, que permeia ambas as obras, transforma o sobrenatural em uma metáfora poderosa para os mistérios da vida e da existência. A delicadeza estética e a profundidade emocional são elementos que conectam essas duas obras de forma significativa, provocando no espectador reflexões profundas e duradouras.
O roteiro, escrito por David Koepp, explora os dilemas internos dos personagens com uma abordagem psicológica que vai além dos clichês do gênero. Presença não é sobre sustos fáceis ou efeitos visuais chamativos; é uma obra que foca nos dilemas humanos, nos conflitos familiares e nas relações interpessoais, sem abrir mão de imprimir suspense e tensão nas cenas. A "presença" observa e interage com a família Payne, e sua perspectiva imortal e atemporal serve como uma lente através da qual refletimos sobre temas como mortalidade, conexões humanas e a essência do existir. Essa abordagem lembra profundamente filmes como Um Olhar do Paraíso, de Peter Jackson, que também explora as barreiras entre mundos e a transcendência emocional.
A estética do filme é outro triunfo. Cada cena é meticulosamente composta, utilizando cores sombrias e uma iluminação que cria uma atmosfera densa, profunda e hipnotizante. Essa atenção aos detalhes remete a obras como O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan, e Os Outros, de Alejandro Amenábar, ambos clássicos que também exploram ambientes opressivos e narrativas emocionalmente envolventes. Ainda assim, Presença consegue estabelecer sua própria identidade ao criar um ambiente tão visualmente impactante quanto narrativamente profundo.
Ao longo de seus 85 minutos, a obra nos envolve em uma narrativa tão rica quanto sensível, que combina drama, suspense e introspecção. Ela é mais do que um simples filme de entretenimento; é uma obra que nos deixa emocionados e contemplativos. Quando as luzes se acendem, permanece um impacto duradouro, um sentimento de humanidade e empatia que é raro de se encontrar em filmes do gênero. Para mim, Presença é admirável e com certeza merece um lugar entre os filmes que nos fazem pensar sobre nós mesmos e sobre o mundo à nossa volta.
Sem dúvida, é uma obra que se destina a espíritos elevados.
Presença estreia nos cinemas brasileiros no dia 03/04/2025.
Para quem aprecia uma boa investigação com uma reviravolta intrigante.